sábado, 8 de novembro de 2008

Sem Agá no Final



Cara de pau, definitivamente. Ele não sabe de onde vem isso, simplesmente sente o impulso e, quando vê, já saiu, já falou, já foi.
Descobriu que uma linha muito tênue separa a cantada vulgar da cantada bacana.Você pode dizer uma coisa legal, mas o que vai determinar o sucesso da investida é o jeito que você fala, a segurança com que você se expressa e a maneira com que você olha pra menina. Olhar é fundamental. Se você olha a garota com aquele mirar cafajeste, não espere mais que um fora ou um tapa na cara. Mas se você olha com olhos de admiração e carinho, meu amigo, você já está com meio caminho andado! Ah... outro detalhe: sorria! Não, não... você não está sendo filmado! É que mulheres adoram sorrisos.
Eram oito horas da noite. Tinha aula de inglês. Ele correu até o ponto de ônibus, como faz todas às segundas-feiras e pegou o mesmo ônibus de todas às segundas-feiras. Ele desceu na plataforma “B” do TICEN, ajeitou a mochila nas costas e caminhou lentamente até a plataforma “A”. Seu caminhar sossegado lhe fez perder o ônibus de sempre. Nem se estressou, estava miraculosamente adiantado. Olhou o display de horários e foi até a parada do “Volta ao Morro Carvoeira Norte”. Faltavam 12 minutos para o ônibus partir, mas ainda não havia ônibus na plataforma.
Ele se escorou numa coluna e esperava o tempo passar. De repente, surge uma menina bonita. Morena de cabelo liso bem comprido. Ela olhou o display de horários, pensou um pouco e foi chegando ao lado dele. Não! Seu nível de atração não era tão grande assim. Ela veio se aproximando porque a fila começava justamente ali, naquela coluna onde ele estava encostado.
Teve tempo de se dar conta disso antes de pensar e dizer: você tem um cabelo bonito, sabia? Disse isso e sorriu. Ela também. Estava numa maré de sorte e parece que nessas horas até a natureza conspira a favor. Bateu um “vento suli” e alvorotou as melenas da morena. Ela lá, no meio daquela cabeleira toda e ele: nossa! Parece até comercial de xampú!
Riram de novo. Ele sentiu a deixa e iniciou um papo.
A forma de cantar uma garota varia muito para cada caso. Nem todas gostam de uma investida direta. Precisa ir de mansinho, ganhar confiança e dar o bote. Às vezes é uma verdadeira loteria. Acertar a forma correta de falar, o que falar e a hora de falar é uma habilidade que se aperfeiçoa aos poucos. É necessária muita sensibilidade e bom senso por parte do camarada, senão, as chances de êxito diminuem consideravelmente.
Ele perguntou se ela fazia UFSC. Ela disse que estava fazendo cursinho e que iria prestar vestibular para medicina. O ônibus chegou, eles entraram e ele pediu para sentar ao lado dela e poderem continuar a conversa.
Cara de pau, definitivamente. Conversaram sobre muita coisa. Seus gostos, suas escolhas, estudos, etc. O papo é essencial. Identificar um papo que vai emplacar, que vai fluir, também é uma arte. Ou sorte. Ele perguntou a idade de forma sutil, como se fosse parte da conversa, só para garantir. Precisava saber se ela já era maior de idade. Dezenove, disse ela (ufa!). Ninfetinha, flor da idade, corpitcho, gatinha!
Conversaram, conversaram, conversaram. Ela já ia descer e ele perguntou “qual o seu telefone?” Ela disse e ele anotou.
- Como você se chama?
- Sara (que nome lindo, ele pensou).
- Prazer, Marcos.
- Tchau!
- Tchau!

Antes que ela descesse, ainda deu tempo de perguntar:
- É Sara com agá no final?
- Não, não tem agá.

Ela se despediu de novo, olhou com aquele olhar Sandy e Júnior, meio de ladinho, do tipo “me liga hein?!” e desceu.
O ônibus deu a partida e, quem sabe, eles também.