terça-feira, 21 de outubro de 2008

Am-ar-te



A arte nos aproxima de Deus ao passo que, como artistas, somos co-criadores do mundo. Arte tem o poder de tocar as pessoas, assim como Deus faz.
Por isso, insisto na idéia de que a arte que cada um de nós traz consigo é um quinhão evidente do Universo em nossas vidas.
A arte ensina, disciplina e nos faz melhores. E é por isso que eu acredito que a arte seja uma das soluções para esse nosso mundo virado.
Como? Elementar, meu caro! Poderia a mesma alma que executa no piano uma sinfonia de Bethoven, executar uma pessoa com um revolver? Poderia alguém que pinta uma bela paisagem em óleo sobre a tela, ser o destruidor da sua própria fonte de inspiração? Poderia um escultor, que valoriza a harmonia das formas, ser indiferente ao se deparar com os mutilados de guerra ou com os corpos lânguidos de quem não tem o que comer? As mentes que procuram entender uma peça de teatro não se contentam com explicações vãs de “politiqueiros” corruptos. Os olhos que apreciam poesias não conseguem apreciar a desigualdade social e a falta de oportunidades.

A arte nos faz mais conscientes, mais sensíveis, mais humanos. E por assim dizer, mais divinos.

domingo, 19 de outubro de 2008

O que poderia ser



Ontem fora o aniversário dela. Tentara por vezes lhe falar pelo número de telefone anotado numa velha agenda. Sem sucesso. Aquela agenda antiga guardava consigo, além da preciosa seqüência numérica, rabiscos e rascunhos de versos feitos dela. Já fazia um ano que não a via. Lembrava-se daquele sorriso, daquela risada incontida e contagiante. Dos olhos grandes e escuros. Recordava-se também dos cílios. Os mais longos e lindos que conhecera. Os inconfundíveis traços árabes de seu rosto contrastavam, numa harmonia contraditória, com seu cabelo pintado e de corte moderno. Ela adorava mexer no cabelo. E ele também. Fazia carinho na nuca e tirava-os da frente dos olhos para poder fixar seus olhares. Acariciava o rosto liso e macio e a beijava. A conexão de seus lábios transportava-o para um mundo diferente e tranqüilo. Paz. E por vezes, transportava-os para a cama, onde seus corpos misturavam-se e fundiam-se num só. Depois, como de costume, ele fazia cafuné até ela dormir. Acreditava que ela fosse um anjo disfarçado de mulher-menina e por isso ele velava seu sono, pois talvez à noite ela voltasse à sua forma original, celeste.
Ela era real, finalmente concluíra. Um sonho real. Princesa, como seu nome significava. Ela era linda. A mais linda de todas. Ele não sabia por que, nem como, nem de onde, mas ela lhe encantava de uma forma distinta de todas as outras. Ele já tivera outras namoradas: modelos, contadoras, advogadas (a maioria delas) e até bailarinas. Uma inclusive virou dançarina do Faustão. Ligava a TV e gabava-se entre seus amigos, dizendo que já havia “pegado” uma delas. Nem todos acreditavam, claro, mas era verdade, “mais do que nunca, meu”. No entanto, desde o dia em que viu aqueles olhos escuros, nunca mais precisou ver TV nas tardes de domingo. Ela passou a ser seu domingo de sol ou de chuva. De praia ou de passeio pelo parque. E ela, sempre com uma flor no cabelo. Nos finais de semana chuvosos o programa era almoço em casa. Ele cozinhava, ela palpitava. “Põe mais sal aí”. Depois, “sessão cinema espanhol na cama com pipoca”. No café, conversas sobre a situação indígena no Brasil ou sobre aquela exposição bacana que estava rolando no MASC.
Ele estava ali, acordado na cama, olhando para o teto branco. Imaginava por onde ela poderia estar. Lembrava-se do dia em que se conheceram no corredor da empresa em que trabalhavam. Tinham planos diferentes: ela trabalhava seis horas por dia, fazia artes plásticas pela manhã e arquitetura à noite. Ele era formado em engenharia, trabalhava duro oito horas por dia e queria crescer na empresa. Ela queria fazer intercâmbio na Austrália, ele em Londres. Ela queria ter três filhos. Ele, só um. Ela queria morar para sempre na Ilha. Ele queria comprar uma casa ao pé da Serra, na beira de um rio. Mas por mais antagônico que possa parecer, completavam-se. Eles falavam de artes, ouviam Oswaldo Montenegro e cantarolavam Los Hermanos pela rua. Quando ela tinha prova na faculdade, ele estudava junto. Para dar apoio, sabe? Eram o tempo todo um e já não sabiam onde a vida de um começava e a do outro terminava. Misturaram-se, misturavam-se.
Ele só pensava nela, mas ele não sabia onde ela pensava. Tinha um comportamento impulsivo. Poderia se esperar qualquer coisa dela e a qualquer momento.
E foi num desses momentos impulsivos que eles se viram pela última vez. Brigaram por uma coisa boba, assim como são bobas todas as razões das brigas bobas.
E agora, ele estava ali, sem rumo. Havia passado a noite em claro, lembrando do escuro dos olhos dela. Sonhava com o que não foi, imaginava o que poderia ter sido e o que seria daqui pra frente.
Levantou-se da cama e deitou-se na rede da sacada. Seus olhos iam ao longe. Era domingo, ideal para um passeio no parque. Quem sabe voltaria? Esperava vê-la retornar com aquele jeito tão encantador e tão único que lhe arrebatara.
E foi pensando assim que ele finalmente adormeceu. Sonhou que ela voltava, correndo com seu All Star dourado, vestindo um casaco verde, uma calça xadrez e uma flor bonita no cabelo.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Opiniões sobre Opiniões



Sinto-me sem opiniões. Não que não as tenha, mas elas se encontram em esquecidos lugares incertos. Não me fazem falta. Há tanta opinião por aí! Todo mundo opina sobre alguma coisa e acha que está certo. Não quero estar certo. E o que é estar certo? Dê a sua opinião! Afinal, sua opinião é importante para nós! Quanta bobagem! Ninguém se importa senão com o que si mesmo pensa. E o que outros pensam é somente o que os outros pensam. Mais nada, absolutamente mais nada.
Faça-me o favor! Não quero saber de nada, não quero sua opinião! Se quisesse, comprava. Não é isso o que tantos fazem? Compram opiniões nas bancas de jornal, acessam opiniões na Internet e depois... bem, depois opinam sobre o que realmente não opinam...
Só quero viver a minha vida, assim meio sem jeito, mas do meu jeito. Não quero pensar na crise americana, não quero pensar sobre o aquecimento global, não quero opinar sobre as eleições municipais e não me importa se o Avaí vai subir e se a bolsa vai descer. Quero saber só de um assunto. Quero saber só de um alguém: eu! Quero formar uma opinião sobre mim mesmo antes de tudo. Quero me encontrar no caminho para ser feliz. Quero viver bem. Quero viver de, do e para o bem. E é isso o que realmente importa, claro, na minha modesta opinião...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Rê-flita


Nosso medo mais profundo não é crer que somos inadequados. Nosso medo mais profundo é saber que somos poderosos além da conta. É a nossa luz que nos assusta e não a nossa obscuridade.
Perguntamo-nos: quem sou eu para me sentir brilhante, atrante, talentoso, poderoso? Mas na realidade quem é você para não sê-lo?
Você é uma criança de Deus. Teu jogo de ser insignificante não serve ao mundo. Não tem nada de iluminado em fazer-te menor, com a finalidade de que outras pessoas não se sintam inseguras ao teu redor.
Todos podemos brilhar, tal como fazem as crianças. Todos nascemos para manifestar a Glória de Deus, que se encontra em nosso interior. Esta Glória não está dentro de uns, mas está dentro de todos nós. É quando permitimos que nossa própria luz brilhe, inconscientemente damos a oportunidade à outras pessoas para fazer o mesmo. A medida que vamos liberando nossos medos, nossa presença libera os outros automaicamente.
Nelson Mandela
Foto: Um Domingo na Lagoa - By FF