domingo, 19 de outubro de 2008

O que poderia ser



Ontem fora o aniversário dela. Tentara por vezes lhe falar pelo número de telefone anotado numa velha agenda. Sem sucesso. Aquela agenda antiga guardava consigo, além da preciosa seqüência numérica, rabiscos e rascunhos de versos feitos dela. Já fazia um ano que não a via. Lembrava-se daquele sorriso, daquela risada incontida e contagiante. Dos olhos grandes e escuros. Recordava-se também dos cílios. Os mais longos e lindos que conhecera. Os inconfundíveis traços árabes de seu rosto contrastavam, numa harmonia contraditória, com seu cabelo pintado e de corte moderno. Ela adorava mexer no cabelo. E ele também. Fazia carinho na nuca e tirava-os da frente dos olhos para poder fixar seus olhares. Acariciava o rosto liso e macio e a beijava. A conexão de seus lábios transportava-o para um mundo diferente e tranqüilo. Paz. E por vezes, transportava-os para a cama, onde seus corpos misturavam-se e fundiam-se num só. Depois, como de costume, ele fazia cafuné até ela dormir. Acreditava que ela fosse um anjo disfarçado de mulher-menina e por isso ele velava seu sono, pois talvez à noite ela voltasse à sua forma original, celeste.
Ela era real, finalmente concluíra. Um sonho real. Princesa, como seu nome significava. Ela era linda. A mais linda de todas. Ele não sabia por que, nem como, nem de onde, mas ela lhe encantava de uma forma distinta de todas as outras. Ele já tivera outras namoradas: modelos, contadoras, advogadas (a maioria delas) e até bailarinas. Uma inclusive virou dançarina do Faustão. Ligava a TV e gabava-se entre seus amigos, dizendo que já havia “pegado” uma delas. Nem todos acreditavam, claro, mas era verdade, “mais do que nunca, meu”. No entanto, desde o dia em que viu aqueles olhos escuros, nunca mais precisou ver TV nas tardes de domingo. Ela passou a ser seu domingo de sol ou de chuva. De praia ou de passeio pelo parque. E ela, sempre com uma flor no cabelo. Nos finais de semana chuvosos o programa era almoço em casa. Ele cozinhava, ela palpitava. “Põe mais sal aí”. Depois, “sessão cinema espanhol na cama com pipoca”. No café, conversas sobre a situação indígena no Brasil ou sobre aquela exposição bacana que estava rolando no MASC.
Ele estava ali, acordado na cama, olhando para o teto branco. Imaginava por onde ela poderia estar. Lembrava-se do dia em que se conheceram no corredor da empresa em que trabalhavam. Tinham planos diferentes: ela trabalhava seis horas por dia, fazia artes plásticas pela manhã e arquitetura à noite. Ele era formado em engenharia, trabalhava duro oito horas por dia e queria crescer na empresa. Ela queria fazer intercâmbio na Austrália, ele em Londres. Ela queria ter três filhos. Ele, só um. Ela queria morar para sempre na Ilha. Ele queria comprar uma casa ao pé da Serra, na beira de um rio. Mas por mais antagônico que possa parecer, completavam-se. Eles falavam de artes, ouviam Oswaldo Montenegro e cantarolavam Los Hermanos pela rua. Quando ela tinha prova na faculdade, ele estudava junto. Para dar apoio, sabe? Eram o tempo todo um e já não sabiam onde a vida de um começava e a do outro terminava. Misturaram-se, misturavam-se.
Ele só pensava nela, mas ele não sabia onde ela pensava. Tinha um comportamento impulsivo. Poderia se esperar qualquer coisa dela e a qualquer momento.
E foi num desses momentos impulsivos que eles se viram pela última vez. Brigaram por uma coisa boba, assim como são bobas todas as razões das brigas bobas.
E agora, ele estava ali, sem rumo. Havia passado a noite em claro, lembrando do escuro dos olhos dela. Sonhava com o que não foi, imaginava o que poderia ter sido e o que seria daqui pra frente.
Levantou-se da cama e deitou-se na rede da sacada. Seus olhos iam ao longe. Era domingo, ideal para um passeio no parque. Quem sabe voltaria? Esperava vê-la retornar com aquele jeito tão encantador e tão único que lhe arrebatara.
E foi pensando assim que ele finalmente adormeceu. Sonhou que ela voltava, correndo com seu All Star dourado, vestindo um casaco verde, uma calça xadrez e uma flor bonita no cabelo.

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